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A Barragem Oiticica, que o
presidente Luís Inácio Lula da Silva e a governadora Fátima Bezerra inauguram
nesta quarta-feira (19), não é apenas uma gigante para acumular água, o que já
seria muito para uma região em situação de vulnerabilidade hídrica, susceptível
ao processo de desertificação. É mais do que isso. É um instrumento importante
para a expansão do desenvolvimento do Seridó e resgate da dignidade humana.
Esta é a opinião predominante de especialistas, gestores públicos e de
moradores da localidade.
Com capacidade para armazenar
742,6 milhões de metros cúbicos de água, a barragem é a principal obra de um
projeto maior chamado Complexo Hidrossocial Oiticica, no município de Jucurutu.
Além do reservatório, o complexo é formado por Nova Barra de Santana, que
abrigava os moradores do Distrito Janúncio Afonso, (conhecido como Barra de
Santana), localizado na área inundável da barragem; três agrovilas onde estão
sendo assentados pequenos produtores, trabalhadores rurais e sem terras; rede
de energia elétrica para uso residencial e produção de cultura irrigadas, e 128
quilômetros de estrada de acesso a estabelecimentos rurais da região.
"O Complexo Hidrossocial
Oiticica é uma obra extraordinária. Trouxe água como vida, respeitando o
direito da população. A dimensão social do empreendimento promove uma
verdadeira transformação na vida das pessoas", define o engenheiro
agrônomo José Procópio de Lucena, atual diretor do IGARN (Instituto de Gestão
das Águas do Estado do Rio Grande do Norte), um dos articuladores do Movimento
dos Atingidos e Atingidas que atua desde o início da construção da barragem, em
2013.
Procópio lembra que o projeto
original não previa a construção das agrovilas para assentamento dos
trabalhadores rurais que manifestaram interesse de permanecer no campo, e
ignorava uma série de demandas da população. "Oiticica não é apenas uma
obra de contemplação, mas fruto da construção das relações democráticas entre a
população e o poder público. Essa obra só chegou aonde chegou porque as
relações democráticas se consolidaram", reforça ele, destacando o papel
que a professora Fátima Bezerra teve como governadora e, antes disso, como
parlamentar, para consolidação do projeto que vai garantir segurança hídrica
para o Seridó pelos próximos 50 anos.
Maioridade hídrica
Parte importante do projeto da
Transposição, o reservatório foi dimensionado para abastecimento de até 2
milhões de pessoas, através do sistema adutor do Seridó, que está em
construção, além de assegurar projetos de irrigação numa área de 10 mil
hectares, abrindo os horizontes para ampliação do desenvolvimento agrário e
industrial no interior do Rio Grande do Norte. Isso fomentará a
implantação de novas empresas e permitirá que os açudes de Cruzeta, Itans e
Sabugi sejam utilizados prioritariamente para piscicultura, irrigação, pecuária
e produção de alimentos.
"Com a conclusão de Oiticica
atingiremos a maioridade do ponto de vista de segurança hídrica em nosso
Estado. Oiticica está interligada à barragem Armando Ribeiro Gonçalves, está
conectada com a transposição do São Francisco. Vamos levar água para todas as
sedes dos municípios daquela região. E o Seridó será uma das poucas regiões
semiáridas do mundo que terá 100% de garantia hídrica", afirma o
secretário de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), Paulo
Varella. Para ele, o complexo Oiticica tem potencial para inverter o
fluxo de saída do pessoal do interior para as grandes cidades. "Eu diria
que é um novo momento, uma virada de chave."
Depoimentos
Morador da Agrovila Raimundo
Nonato, a poucos quilômetros da barragem, Francisco Evaldo de Souza tem 45 anos
de idade, é casado e pai de dois filhos, um deles o ajuda na luta diária. Sem
terra, sem teto, sem emprego, vivendo da pesca e de serviços eventuais na
agricultura, enfrentou tempos difíceis. "Cheguei a morar debaixo de uma
oiticica com a mulher e os filhos." Com o passar dos anos, Evaldo
conseguiu abrigo na comunidade Carnaúba Torta, localizada na área inundável da
barragem, onde vivia da pesca e de serviços eventuais na agricultura. “Fomos
criados na areia do rio. Somos daquelas crianças que cresceram sabendo como é a
dura realidade da vida”, relata Lázaro Lucas, filho mais velho de Evaldo,
estudante do 9º ano do Ensino Fundamental, que planeja fazer um curso técnico
na área agrícola para ajudar o pai.
Hoje, a família ocupa o lote 34
da agrovila. Na quadra chuvosa do Semiárido nordestino (fevereiro a maio) ele
planta milho e feijão para consumo próprio. Encerrada a colheita, se volta para
as culturas de vazante no aceiro de um riacho, braço do Rio Piranhas, onde foi
construída, há muitos anos, uma barragem submersa. "Se a vida melhorou pra
nós depois disso tudo aqui? Muito!... Chegamos a passar fome, mas hoje temos
nossa casinha pra morar e terra para plantar. Antes, a gente dependia da
terra dos outros para sobreviver", afirma Evaldo.
Mecânico autodidata, o jovem
Vinícius Santos, 21 anos, também soube aproveitar as oportunidades criadas pela
construção do complexo Oiticica. Morador de Nova Barra de Santana, ele montou
uma loja de peças e comanda a oficina de conserto de motos. Aprendeu o serviço
trabalhando na oficina do irmão, em Caicó. "Só não faço retifica de motor,
mas o resto eu dou conta", explica.